segunda-feira, 11 de março de 2013

com a palavra: Venerável Yinshun

http://www.mlausa.org/img/yinshun.jpg

"A propagação do Dharma do Buda se apóia no uso da linguagem. Entretanto, a linguagem é apenas uma ferramenta. Aqueles que são proficientes em idiomas não são necessariamente proficientes no Dharma do Buda. Ao estudar uma língua associada ao budismo, é necessário fazê-lo pelo bem do próprio Dharma. Pela linguagem, deve-se buscar e traduzir os ensinamentos do Buda preservados nos textos canônicos em páli, tibetano e sânscrito. Dessa forma é possível beneficiar aos que não conhecem tais idiomas."

(A sixty-year spiritual voyage on the ocean of Dharma. Towaco: Noble Path, 2009, p. 92)

sexta-feira, 8 de março de 2013

soluções tradutórias: prajñā profunda ou transcendental?

Prajñā, em sânscrito, é uma das paramitas presentes no budismo. O termo significa sabedoria, entendimento, acuidade cognitiva. Costuma ser traduzido por sabedoria profunda ou sabedoria transcendental

Eu, de minha parte, prefiro sabedoria profunda. Quando se coloca o adjetivo transcendental, existe uma grande chance de que a compreensão de prajñā seja influenciada por noções metafísicas, atrelando a sabedoria a algum tipo de conhecimento supramundano. É o perigo de dar ao budismo e à iluminação uma característica de filosofia perene (gnosticamente falando) que foge à sua natureza filosófica. 

segunda-feira, 4 de março de 2013

ideofonogramas, psicanálise e naturalização da etimologia

Quando comentei, alguns posts atrás, sobre a etimologia do caracter para Buda (佛), pensei que seria interessante apresentar duas questões possíveis quanto aos processos de constituição da escrita chinesa. 

Partindo de um psicanalista lacaniano chinês - o "único psicanalista da China" -, Huo Datong nos recorda que a parte esquerda do caracter (no caso de 佛 os dois tracinhos ali, que são radical para 人, homem) está geralmente relacionada com a imagem, numa conexão lacaniana com o significante que, concreto, encontra correspondência na realidade objetiva. Vejo 人, vejo um homem/pessoa em pé. 

A parte direita do caracter (弗, , no caso de Buda) é apenas a atribuição fonética ao novo caracter, composto. Nesse caso, a origem etimológica perderia o significado (弗 sendo um elemento de negação, como mencionei) e figuraria apenas como acessório sonoro à composição. 

A razão para isso? Simples: a visão do elemento à esquerda acionaria o hemisfério direito do cérebro, responsável pela compreensão mais abrangente e visual do contato sensorial, lidando com a totalidade orgânica dos dados percebidos e com sua conexão com elementos concretos. 

A visão do elemento à direita acionaria, por sua vez, o hemisfério esquerdo do cérebro, responsável por funções fonadoras, racionalização, pela concretude e pela generalidade dos processos linguísticos. 

E diz mais, Huo Datong: diz que existe uma quebra entre a imagem e a realidade, e uma passa a não mais remeter à outra, num processo de patologização da linguagem alienada. Vejam: 

4.3 La coupure qui se produit entre la figure du caractère chinois et le signifié représente la rupture du lien de l’imaginaire et du réel. La manifestation pathologique de cette rupture est l’amnésie dont l’état extrême est que le patient ne se souvient plus de rien. 

[…] Nous pouvons remarquer aussi que le pictogramme de cheval dans l’idéophonogramme de mère ne joue qu’un rôle phonétique, tandis que sa figure en tant qu’image visuelle du cheval a perdue sa fonction de la représentation de chose, c’est-à-dire son élément de la figure a été refoulé. Le pictogramme de cheval n’indique pas maintenant le cheval, mais seulement le son, ma. (aqui: http://www.lacanchine.com/Ch_C_HuoInc_Txt.html

Explicando que o elemento cavalo do caracter para mãe (o 马 de 妈) cumpre apenas função fonética, o psicanalista diz algo semelhante ao que diz Jonathan Stalling, quando critica a visão reificada, concreta e imagista que – sobretudo – Ezra Pound imprimiu à escrita chinesa. 

Pound, arrastando Ernst Fenollosa consigo nessa obsessão imagista, fazia parecer que a escrita ideogrâmica era supremamente fotográfica, com tudo sendo diretamente vinculado a um elemento do real (ou algo aproximado, posso estar exagerando). Stalling, sobre isso, percebe a constante “ruptura entre real e imaginário” que Huo Datong enunciou e desmente, assim, a ubíqua relação concreta dos poetas: 

The old theory as to the nature of the Chinese written character (which Pound and Fenollosa followed) is that the written character is ideogrammic—a stylized picture of the thing or concept it represents. The opposing theory (which prevails today among scholars) is that the character may have had pictorial origins in prehistoric times but that these origins have been obscured in all but a few very simple cases, and that in any case native writers don’t have the orig- inal pictorial meaning in mind as they write.
(no livro – muito interessante - Poetics of Emptiness

Isso quer dizer que nossa constatação de que Buda (佛) poderia ser um não-humano (人+弗) está, provavelmente, errada do começo ao fim. Seja como for, pensar sobre isso é um exercício interessante para praticar a composição e a aprendizagem dos elementos ideogrâmicos.

domingo, 3 de março de 2013

soluções tradutórias: mente ou coração?

se eu traduzo um contexto negativo de 心 por mente, quero dizer que ela é confusa, que os pensamentos me perturbam, que o turbilhão de correntes lógicas, linguísticas, imagéticas e sonoras não param de me assaltar a cabeça.

se traduzo um contexto negativo de 心 por coração, quero dizer que ele é triste, angustiado, aflito, com sentimentos que me assolam, com pessimismos que me deprimem, com raivas ou orgulhos que me preenchem o peito.

Duas concepções bem diferentes para esse discurso, não?

sábado, 2 de março de 2013

soluções tradutórias: chão da mente?

Um colega e irmão no Dharma me perguntou como eu traduziria cittabhumi (sânscrito, normalmente traduzido como chão da mente). Em chinês, 心地, o termo apresenta os caracteres mente/coração (心) e terra/solo/base (地).

Daí que a tradução mais comum parece ser (em mais uma literalidade sem sentido) chão da mente (aqui: http://budadharma.paginas.sapo.pt/sutra_rede.htm)

Mas a ideia de um chão da mente, de uma base que sustente e unifique o substantivo - em malabarismos filosóficos que no momento não nos interessam - faz com que a unidade se divida em dois elementos, justamente os dois substantivos da expressão comumente traduzida (novamente, ao que parece, pelo caminho inglês de mind-ground).

Como em bondade amorosa (tradução corrida de loving-kindness), chão da mente divide a unidade do substantivo aglutinado que o hífen inglês emulava. Neste caso agora, tanto pior: a colocação da preposição de (chão da mente) faz parecer que são mesmo duas coisas separadas, ou algum elemento parcial de uma totalidade. Justamente o contrário do que se pretendia com cittabhumi, supomos:
The early Buddhist thinkers emphasised the unitary nature of the mind. The Sarvastivadins in order to explain the unity of the mind described the mind as a ground or base which they called Cittabhumi. They rejected the realm of unconsciousness, alaya-vijnana, postulated by theYogacarins of Mahayana Buddhism who believed that from the realm of unconsciousness arose the conscious mind and the objects. (http://en.wikipedia.org/wiki/Cittabhumi)
Daí que eu respondi que traduziria, concordando com a proposta de meu amigo, simplesmente como mente. Talvez com o título do capítulo explicitando - uma única vez - "A mente como base para o Bodhisattva", e todas as acepções seguintes sendo mente, e só.

(Solução que é a do dicionário de termos budistas chineses, aliás:

心地 Mind, from which all things spīng; the mental ground, or condition; also used for 意 the third of the three agents-body, mouth, mind. (http://mahajana.net/texts/kopia_lokalna/soothill-hodous.html)

tanto mais pertinente quanto sua tradução venha de uma fonte chinesa, e não indiana)

soluções tradutórias: bondade amorosa e amabilidade

maitri (do sânscrito; metta em páli), uma das mentes ilimitadas, das dez paramitas, 慈 (cí) em chinês, que lusófonos têm mania de traduzir por "bondade amorosa" (vertendo ao pé da letra a "loving-kindness" da opção inglesa), e que categoricamente não significa nada em português, tem uma ótima alternativa: amabilidade.

(com uma menção honrosa para gentileza)

sexta-feira, 1 de março de 2013

sinais diacríticos, sim ou não?

http://visitemisteri.files.wordpress.com/2009/07/sanscrito1.jpg
Para transliterar do sânscrito, normalmente são usados sinais diacríticos, para aproximar nossa escrita latina desse sistema fonético indiano. Entretanto, para os leitores lusófonos, essas marcas diacríticas quase sempre são ignoradas, pelo desconhecimento das alterações fonéticas que delas decorrem.

Portanto, pergunto: translitero com diacríticos ou faço como têm sido feito, também em grande parte das vezes, e ignoro os ā, , e outras grafias que nos dizem pouco, quase nada?