Mostrando postagens com marcador com a palavra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador com a palavra. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

com a palavra: Gary Snyder - A política da etnopoética (1975) [hoje]

A política da etnopoética (1975)

Os ritmos e modulações da música arcaica, os pequenos cantos e coros de canções e danças, as repetições nos transes e as imagens que aparecem claramente, os chamados dos pássaros e a pressa metafórica dos fluxos que estão na textura da poética do mundo, tudo manifesta o que Lewis Thomas encontrou nos concertos de Brandemburgo. Àqueles que pretendem ser poetas e aos acadêmicos, o estudo da etnopoética proporciona centenas de modelos de estratégias de poema, formas, ângulos, de imagens retóricas, tipos de jogos de palavras e jogos mentais que enriquecem nosso sentido de realização humana sem subtrair nada de ninguém.

https://smallnotes.library.virginia.edu/files/2014/01/Gary-Snyder-copy.jpgO modo de se expressar gratidão e respeito por esses ensinamentos de poesia, música e canção é se aliar ao trabalho de ajudar a sociedade de subsistência em extinção que estiver mais próxima de você, em sua luta contra o saque da terra e da cultura. Em termos de vida no fim do século XX, com todos os seus terríveis sofrimentos, os povos de subsistência indígena, suas culturas e as selvas ou florestas onde habitam têm passado por algo muito pior. Eles estão desaparecendo, mesmo que elogiemos suas canções.

 
 
 
Gary Snyder. Re-habitar: ensaios e poemas. Organização de Sergio Cohn e Luci Collin. Tradução de Luci Collin. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

com a palavra: gary snyder sobre a prática da meditação, sobre a prática da poesia

Atenção: calma deliberada
e silêncio.

[...]

Meditação não é somente um descanso ou um retiro do tumulto, da correnteza de impurezas deste mundo. É uma forma de se ser a correnteza, para tornar possível estar à vontade tanto nas águas calmas quanto no turbilhão. A meditação pode nos tirar do mundo, mas também nos colocar totalmente nele. Poemas também funcionam um pouco desse jeito. A experiência de um poema nos oferece distância e envolvimento: ficamos próximos e distantes ao mesmo tempo.


[...]

Tradições de atenção deliberada da consciência, e a feitura de poemas, são tão velhas quanto a humanidade. A meditação olha para dentro, a poesia se demora. Uma é privativa, a outra está no mundo. Uma adentra o momento, a outra o partilha. Mas na prática, nunca sabemos claramente qual é qual. Em todo caso, sabemos que a despeito da percepção atual sobre meditação e poesia serem especiais, exóticas e difíceis, ambas são antigas e banais feito mato. Aquela se volta aos momentos essenciais de calma e introspeção profunda, e esta ao impulso fundamental da expressão.

[...]

Poesia é um meio de celebrar a verdade de um universo não-dual, em todas suas facetas.

[...]

[Como disse o poeta Bashô] “toda poesia e arte são oferendas ao Buda.”

(trechos traduzidos a partir do original Just One Breath: The Practice of Poetry and Meditation)

sábado, 22 de outubro de 2016

menos que um/com a palavra: gary snyder sobre a prática

"Entrevistador: Vamos falar sobre budismo mais um pouco. Para muitos poetas, poesia é a religião do século vinte. E estou curioso, nesse sentido, para saber o que você aprendeu do budismo que não aprendeu da poesia.

Gary Snyder: Tive uma conversa engraçada com Clayton Eshleman, o editor e poeta, há muitos anos, quando ele ainda estava em Quioto. Clayton falava sobre poesia, exaustiva e apaixonadamente. E eu disse a ele: “Mas Clayton, eu já tenho uma religião. Sou budista.” [...] Não acho que arte seja uma religião. Não acho que ela lhe ajude a ensinar seus filhos como agradecer pela comida, como discernir o verdadeiro do falso, ou como não prejudicar os outros. Arte certamente pode ajudá-lo a explorar sua própria consciência, sua própria mente e suas próprias motivações, mas não oferece um programa para sua realização. Penso que arte é bem próxima do budismo e pode ser parte de sua prática, mas há terrenos que a psicologia e a filosofia budistas devem explorar, e que a arte seria bem tola se tentasse.

Entrevistador: Então você faz essa distinção basicamente sobre questões éticas?

Snyder: Bom, tem ética, tem filosofia, tem o espírito de devoção, e tem também a simples capacidade de que isso se torne uma base cultural, um território no qual você seja capaz de transmitir seu modo de ser-e-estar, e a religião desempenha um forte papel nesse sentido. E também há o outro fim da prática religiosa e budista, aquele que ultrapassa a arte. Por ele, você se torna capaz de entrar no terreno da completude e beleza de todos os fenômenos. Você realmente entra no mundo, não precisa de arte porque tudo é extraordinário, fresco e fantástico.”

Trecho da entrevista concedida em 1992, presente no livro Beat writers at work, editado por George Plimpton. Na apresentação da entrevista, a nota: "O que a transcrição não mostra é a quantidade de vezes que a conversa foi marcada por gargalhadas."

Tradução minha.

domingo, 1 de maio de 2016

com a palavra: gary snyder e luci collin, sobre o chamado



Gary Snyder – O chamado selvagem
(tradução de Luci Collin)

Na cama à noite o velho circunspecto
Ouve o canto do  Coiote
            na planície distante.
A vida toda lidou no rancho e abriu mina e cortou tora.
Católico.
Californiano mesmo.
            e os Coiotes uivam no seu
Octagésimo ano.
Vai chamar o Armadilheiro do
Governo
Que usa aratacas de ferro nos Coiotes,
Amanhã.
Meus filhos vão perder esta
Música que eles mal começaram a
Amar.

***

Os ex-chapados de ácido das cidades
Se converteram em Gurus ou Swamis,
Fazem penitência com luminosos
Olhos dopados e deixam de comer carne.
Nas florestas da América do Norte,
Terra do Coiote e da Águia,
Eles sonham com a Índia, com
            jubilosas e assexuadas elevações eternas,
E dormem em cúpulas geodésicas
Aquecidas a petróleo, que
Foram grudadas como excrescências
Nas matas.

E o Coiote cantando
            é escorraçado
            pois eles temem
            o chamado
            selvagem.

E eles venderam seu cedral virgem,
as árvores mais altas em milhas,
Pra um madeireiro
Que lhes disse.

“Árvores são cheias de parasitas”.

***

O Governo finalmente decidiu
Travar a guerra           radical. Derrota
            é Não-americana.

E eles tomaram o ar
Suas mulheres do lado deles,
            em penteados bufantes
            passando esmalte de unha nos
            controles de disparo de caças-bombardeiros.
E eles nunca desceram,
            porque acharam que
            o solo
é pró-comunista. E sujo.
E os insetos apoiam os vietcongues.

Assim bombardeiam e bombardeiam
Dia após dia, por todo o planeta
            cegando pardais
            rompendo tímpanos de corujas
            lanhando troncos de cerejeiras
            unindo e enrolando
            as tripas dos cervos
            nas rochas fendidas e poentas.

Todos esses americanos de cima em cidades especiais no céu
Despejando venenos e explosivos
Primeiro pela Ásia,
E depois na América do Norte,
Uma guerra contra a terra.
Quando terminar não haverá
            nenhum lugar

Onde um Coiote possa se esconder.

            envoi

            Gostaria de dizer que
            O Coiote está pra sempre
            Dentro de você.

            Mas não é verdade.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

com a palavra: Jerome Rothenberg - Uma proposta acadêmica (1972) [hoje]

Uma proposta acadêmica (1972) [hoje, sobre literatura portuguesa nas escolas do brasil e o veto presidencial às línguas e processos pedagógicos indígenas]

Por um período de vinte e cinco anos, digamos, ou durante o tempo necessário para uma nova geração descobrir onde ela vive, retire as grandes epopéias gregas dos currículos de graduação universitária & as substitua pelas grandes epopéias americanas. Estude o Popol Vuh onde se hoje estuda Homero, & estude Homero onde hoje se estuda o Popol Vuh – como antropologia exótica, etc. Se você tiver um espaço na sua mente para a Antologia grega (sabe-se lá se você tem), deixe que seja preenchido pela Winged Serpent de Margot Astrov, ou pelo Technicians of the Sacred, do presente editor, ou ainda por este mesmo volume que você está lendo. Ministre cursos de religião que comecem assim: “Este é o relato de como tudo estava em suspensão, tudo em calma, em silêncio; tudo imóvel, quieto, & a vastidão do céu era vazia” – & use isto como uma norma para comparar todos os outros livros religiosos, sejam eles gregos ou hebraicos. Encoraje os poetas a traduzirem os clássicos americanos nativos (uma nova versão para cada nova geração), mas primeiro lhes ensine a cantar. Deixe jovens poetas índios (que ainda sabem cantar ou contar uma história) ensinarem jovens poetas brancos a fazer isto. Estabeleça cadeiras em literatura americana & teologia, etc., para serem ocupadas por pessoas treinadas em transmissão oral. Lembre-se, também, que os antigos cantores & narradores ainda estão vivos (ou que seus filhos & netos estão), & que menosprezá-los, ou deixá-los na pobreza, é um afronta ao espírito-da-terra. Chame esta afronta de pecado-contra-Homero.
Dê aulas com um chocalho & um tambor.

Jerome Rothenberg – Etnopoesia no milênio. Organização de Sergio Cohn. Tradução de Luci Collin. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2006, p. 79-80


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

com a palavra: Manuel Iris

"Pois observem, em todo caso, que o poeta a quem outros poetas 'reconhecidos' impedem de escrever o que verdadeiramente necessita, ou o poeta a quem a falta de bolsas e prêmios impede de desenvolver a poesia que lhe faz falta, ou aquele de quem o menosprezo da crítica tira o sono e assombra a pena, ou o que anda esperando arranjar tal ou qual emprego para poder se dedicar à poesia, não é poeta, senão um desorientado que está nisso pelo que não é, que não compreende a questão: um poeta se dedica a perseguir sua própria voz, e nisso deve ser insubornável e completamente autônomo. Escrever é algo que se faz com ou sem bolsas, com ou sem amigos, com ou sem apoios, com ou sem trabalho.

O poema de cada um é, precisamente, o lugar em que exerce sua liberdade. Quem permite que esta liberdade seja tomada é um fraco, e ponto.

Uma coisa é a ansiedade das influências e outra muito diferente é a paralisia lamentosa. É necessário ser sempre honesto e escrever o que se é, a partir daquilo que se é, esteja na moda ou não.

E, se não há tempo, é preciso criá-lo."



"Pues miren ustedes, en todo caso, el poeta al que otros poetas “encumbrados” le impiden escribir lo que verdaderamente necesita, o al que la falta de becas o premios le impide desarrollar la poesía que le hace falta, o al que el ninguneo de la crítica no deja dormir y le estorba la pluma, o el que anda esperando a tener tal o cual trabajo para poderse dedicar a la poesía, no es un poeta, sino un despistado que anda en esto por lo que no es, o que no acaba de entender el asunto: un poeta se dedica a perseguir su propia voz, y en esto esto debe ser insobornable y completamente autónomo. Escribir se ejerce con o sin beca, con o sin amigos, con o sin apoyos, con o sin trabajo. 

El poema de cada quien es, precisamente, el lugar en que ejerce su libertad. Quien deje que ésta le sea arrebatada es un pendejo, y punto. 

Una cosa es la ansiedad de las influencias y otra muy distinta la parálisis quejumbrosa. Siempre hay que ser honestos y escribir lo que uno es, desde lo que uno es, esté de moda o no. 

Y si no hay tiempo, hay que crearlo."

sábado, 9 de novembro de 2013

com a palavra: Jerome Rothenberg [etnopoesia no milênio, som, tradução, índios e chineses]

"Decidi traduzir os vocábulos &, a partir disto, já estava jogando com a possibilidade de traduzir outros elementos das canções que normalmente não são contemplados pela tradução. Também pareceu importante ficar tão longe quanto possível da escrita. Então comecei a falar, e depois a cantar minhas próprias palavras em cima da gravação de Mitchell, substituindo os vocábulos dele com sons que me pareceram relevantes, gravando a seguir minha versão numa nova fita cassete, tendo que daí explorá-la em suas próprias condições. Também não foi fácil para mim romper o silêncio ou ir além dos níveis de entonação superficiais de minha fala & eu ainda achava mais natural naquela versão anterior substituir os vocábulos por palavras inglesas curtas, como 'one', 'none' e 'gone' (é difícil para um poeta-da-palavra abandonar por completo as palavras), esperando que algo da sua força semântica diminuísse com a reiteração:"

Jerome Rothenberg, no texto Tradução total: uma experiência na apresentação da poesia ameríndia, de 1969. Esse é um dos ensaios incluídos no livro Etnopoesia no milênio, traduzido por Luci Collin e organizado por Sergio Cohn, lançado pela Azougue em 2006.

O que mais interessa notar, nessa passagem, é a preocupação de uma tradução total que envolva os elementos não-semânticos, sonoros e performáticos da poesia ameríndia (Rothenberg está falando sobre a tradução da poesia navajo, sudoeste dos Estados Unidos). Júlio Jatobá e eu, traduzindo poesia chinesa para o português, percebemos parte dessa urgência: como traduzir uma poesia marcadamente sonora (dado que cada caracter chinês representa um fonema) sem apelar para a "poesia-da-palavra"?

Como encontrar compensações e equilíbrios entre a tradução sonora, performática porque cantável, e a carga semântica e imagética que o texto também apresenta?

Estamos, por enquanto, trilhando isso. Rothenberg vem pra ajudar.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

com a palavra: Idelber Avelar

Uma tradução, como qualquer discurso, nunca é completamente ingênua. Pode ser inconscientemente ardilosa, pode não ser conscientemente perversa, mas nunca é ingênua e pura. Neste caso aqui, político, ela não só é ardilosa como, consciente, é ideológica.

"Todos os principais jornais e portais de notícias brasileiros publicam hoje matérias sobre Edward Snowden, nas quais insistem numa tradução que, no meu modo de ver, é monstruosa. Um "whistleblower" não é, não é, não é um "delator". Ser um "whistleblower" é uma honra, um ato de coragem, um exercício de cidadania.

Um "whistleblower" arranca segredos do poder, falcatruas dos poderosos, e os oferece gratuitamente ao interesse público. Um delator é exatamente o contrário disso: entrega um indivíduo às garras desse mesmo poder. Bradley Manning e Edward Snowden não são "delatores". Eles não são Cabo Anselmo, não são Joaquim Silvério dos Reis.

Traduzam como queiram, "denunciante", "revelador de segredos do Estado", a elegância da tradução pouco me importa. Mas incomoda-me muito que a palavra "delator" -- que nomeia o ponto mais baixo a que pode chegar a dignidade humana -- continue sendo associada a figuras tão corajosas e dignas como Bradley Manning e Edward Snowden."


Sobre Edward Snowden, vazador de informações da CIA: http://en.wikipedia.org/wiki/Edward_Snowden
Sobre Bradley Manning, da WikiLeaks: http://en.wikipedia.org/wiki/Edward_Snowden

segunda-feira, 11 de março de 2013

com a palavra: Venerável Yinshun

http://www.mlausa.org/img/yinshun.jpg

"A propagação do Dharma do Buda se apóia no uso da linguagem. Entretanto, a linguagem é apenas uma ferramenta. Aqueles que são proficientes em idiomas não são necessariamente proficientes no Dharma do Buda. Ao estudar uma língua associada ao budismo, é necessário fazê-lo pelo bem do próprio Dharma. Pela linguagem, deve-se buscar e traduzir os ensinamentos do Buda preservados nos textos canônicos em páli, tibetano e sânscrito. Dessa forma é possível beneficiar aos que não conhecem tais idiomas."

(A sixty-year spiritual voyage on the ocean of Dharma. Towaco: Noble Path, 2009, p. 92)