terça-feira, 8 de agosto de 2017

com a palavra: gary snyder sobre a prática da meditação, sobre a prática da poesia

Atenção: calma deliberada
e silêncio.

[...]

Meditação não é somente um descanso ou um retiro do tumulto, da correnteza de impurezas deste mundo. É uma forma de se ser a correnteza, para tornar possível estar à vontade tanto nas águas calmas quanto no turbilhão. A meditação pode nos tirar do mundo, mas também nos colocar totalmente nele. Poemas também funcionam um pouco desse jeito. A experiência de um poema nos oferece distância e envolvimento: ficamos próximos e distantes ao mesmo tempo.


[...]

Tradições de atenção deliberada da consciência, e a feitura de poemas, são tão velhas quanto a humanidade. A meditação olha para dentro, a poesia se demora. Uma é privativa, a outra está no mundo. Uma adentra o momento, a outra o partilha. Mas na prática, nunca sabemos claramente qual é qual. Em todo caso, sabemos que a despeito da percepção atual sobre meditação e poesia serem especiais, exóticas e difíceis, ambas são antigas e banais feito mato. Aquela se volta aos momentos essenciais de calma e introspeção profunda, e esta ao impulso fundamental da expressão.

[...]

Poesia é um meio de celebrar a verdade de um universo não-dual, em todas suas facetas.

[...]

[Como disse o poeta Bashô] “toda poesia e arte são oferendas ao Buda.”

(trechos traduzidos a partir do original Just One Breath: The Practice of Poetry and Meditation)

domingo, 23 de julho de 2017

menos que um: olhar comum de pattiann rogers

Abaixo, a tradução que fiz de A Common Sight, da poeta americana Pattian Rogers. Agradeço às também poetas e ótimas leitoras Robin Myers e Micheliny Verunschk pelo incentivo à leitura e à tradução deste poema, respectivamente.


VISÃO COMUM

Há pelo menos um olho
para todas as coisas nesta tarde.
As algas e os germes, invisíveis
para alguns, por exemplo, são vistos
por protozoários; e os girinos
de cauda escura, aglomerados,
são encontrados pelo besouro
prenhe de ovos. A truta tem olhos
para as larvas sobre a água, peixinhos,
para as ninfas de libélula; outros peixes reluzentes
testemunham a presença
de tropéis de moscas d'água.

Os grãos de solidago
valiosos, são algo que procura
o gafanhoto, a quem, por sua vez, o musaranho
encontra num instante, se agitando
e atraindo os olhos bem treinados
do gavião que caça roedores.

Há um olhar para cada coisa.
A salamandra busca
vermes-crina-de-cavalo, e a aranha-pernilonga
presta atenção ao mosquito em voo,
e ao pernilongo. Pererecas
não passam despercebidas, sendo espiadas
sobretudo pelos quatis,
e ainda que seja noite por sob
a terra, a minhoca, a lagarta e a larva de cigarrinha são notadas
pela toupeira-nariz-de-estrela.

É tão estranho que nada passe despercebido.
Mesmo o tempo demonstra isso,
cada copépode na colônia possuindo
uma fotopercepção que é sensível
às horas, a congregação toda se erguendo
como se um corpo só, a tocar esta tarde
que existe pra fora do açude.

E eu tenho meu próprio olho
para esta visão específica, esta contínua
validação-pelo-olhar que é dada
e às vezes retida pelo mexilhão,
pelo percevejo-d'água, lince, pela abelha
silvestre, pelo mergulhão, pela mosca
de mais de mil olhos, pelo agreste e atento
molusco sombreiro.

Observe, eu te peço, como espreito. Observe
meu olhar, como o mantenho. Observe quanto tempo,
quão amável, observe
como alimento.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

menos que um: a memória de auden para yeats

Há quatro anos, traduzi o primeiro texto da seção menos que um, que ali mesmo ganhou título. Hoje, ajeito um pouco os versos e aqui posto de novo. Poema de W.H. Auden para W.B. Yeats, que conheci por J. Brodsky através de A. Malaspina.


W.B. Yeats


In Memory of W.B. Yeats
[em memória de W.H. Auden
em memória de Joseph Brodsky]

O tempo, impaciente
Com o medroso ou o valente,
Que não se importa nem um pouco
Com a beleza de um corpo,

Venera a linguagem e libera
A todos que dão vida a ela;
Perdoa o covarde, o que abusa
e diante deles se curva.

[...]

Segue, poeta, mantém o passo
Direto ao âmago do ocaso,
Com sua voz, tranquilamente
Aponte o júbilo pra gente.

[...]

Nos desertos de dentro d'alma
Faz jorrar a fonte que acalma,
Na prisão de seus dias sem cor
Mostra ao liberto o que é louvor.


W.H. Auden


In Memory of W.B. Yeats

Time that is intolerant
Of the brave and the innocent,
And indifferent in a week
To a beautiful physique,

Worships language and forgives
Everyone by whom it lives;
Pardons cowardice, conceit,
Lays its honours at their feet.

[...]

Follow, poet, follow right
To the bottom of the night,
With your unconstraining voice
Still persuade us to rejoice 
[...]

In the deserts of the heart
Let the healing fountains start,
In the prison of his days
Teach the free man how to praise.

sábado, 22 de outubro de 2016

menos que um/com a palavra: gary snyder sobre a prática

"Entrevistador: Vamos falar sobre budismo mais um pouco. Para muitos poetas, poesia é a religião do século vinte. E estou curioso, nesse sentido, para saber o que você aprendeu do budismo que não aprendeu da poesia.

Gary Snyder: Tive uma conversa engraçada com Clayton Eshleman, o editor e poeta, há muitos anos, quando ele ainda estava em Quioto. Clayton falava sobre poesia, exaustiva e apaixonadamente. E eu disse a ele: “Mas Clayton, eu já tenho uma religião. Sou budista.” [...] Não acho que arte seja uma religião. Não acho que ela lhe ajude a ensinar seus filhos como agradecer pela comida, como discernir o verdadeiro do falso, ou como não prejudicar os outros. Arte certamente pode ajudá-lo a explorar sua própria consciência, sua própria mente e suas próprias motivações, mas não oferece um programa para sua realização. Penso que arte é bem próxima do budismo e pode ser parte de sua prática, mas há terrenos que a psicologia e a filosofia budistas devem explorar, e que a arte seria bem tola se tentasse.

Entrevistador: Então você faz essa distinção basicamente sobre questões éticas?

Snyder: Bom, tem ética, tem filosofia, tem o espírito de devoção, e tem também a simples capacidade de que isso se torne uma base cultural, um território no qual você seja capaz de transmitir seu modo de ser-e-estar, e a religião desempenha um forte papel nesse sentido. E também há o outro fim da prática religiosa e budista, aquele que ultrapassa a arte. Por ele, você se torna capaz de entrar no terreno da completude e beleza de todos os fenômenos. Você realmente entra no mundo, não precisa de arte porque tudo é extraordinário, fresco e fantástico.”

Trecho da entrevista concedida em 1992, presente no livro Beat writers at work, editado por George Plimpton. Na apresentação da entrevista, a nota: "O que a transcrição não mostra é a quantidade de vezes que a conversa foi marcada por gargalhadas."

Tradução minha.

domingo, 1 de maio de 2016

com a palavra: gary snyder e luci collin, sobre o chamado



Gary Snyder – O chamado selvagem
(tradução de Luci Collin)

Na cama à noite o velho circunspecto
Ouve o canto do  Coiote
            na planície distante.
A vida toda lidou no rancho e abriu mina e cortou tora.
Católico.
Californiano mesmo.
            e os Coiotes uivam no seu
Octagésimo ano.
Vai chamar o Armadilheiro do
Governo
Que usa aratacas de ferro nos Coiotes,
Amanhã.
Meus filhos vão perder esta
Música que eles mal começaram a
Amar.

***

Os ex-chapados de ácido das cidades
Se converteram em Gurus ou Swamis,
Fazem penitência com luminosos
Olhos dopados e deixam de comer carne.
Nas florestas da América do Norte,
Terra do Coiote e da Águia,
Eles sonham com a Índia, com
            jubilosas e assexuadas elevações eternas,
E dormem em cúpulas geodésicas
Aquecidas a petróleo, que
Foram grudadas como excrescências
Nas matas.

E o Coiote cantando
            é escorraçado
            pois eles temem
            o chamado
            selvagem.

E eles venderam seu cedral virgem,
as árvores mais altas em milhas,
Pra um madeireiro
Que lhes disse.

“Árvores são cheias de parasitas”.

***

O Governo finalmente decidiu
Travar a guerra           radical. Derrota
            é Não-americana.

E eles tomaram o ar
Suas mulheres do lado deles,
            em penteados bufantes
            passando esmalte de unha nos
            controles de disparo de caças-bombardeiros.
E eles nunca desceram,
            porque acharam que
            o solo
é pró-comunista. E sujo.
E os insetos apoiam os vietcongues.

Assim bombardeiam e bombardeiam
Dia após dia, por todo o planeta
            cegando pardais
            rompendo tímpanos de corujas
            lanhando troncos de cerejeiras
            unindo e enrolando
            as tripas dos cervos
            nas rochas fendidas e poentas.

Todos esses americanos de cima em cidades especiais no céu
Despejando venenos e explosivos
Primeiro pela Ásia,
E depois na América do Norte,
Uma guerra contra a terra.
Quando terminar não haverá
            nenhum lugar

Onde um Coiote possa se esconder.

            envoi

            Gostaria de dizer que
            O Coiote está pra sempre
            Dentro de você.

            Mas não é verdade.


quinta-feira, 21 de abril de 2016

menos que um: juan gelman y lobo amarillo



Defectos

Lobo Amarelo se sentou y disse:
«os brancos contaram só um lado das coisas»
«contaram em seu favor»
«contaram muito que não é verdade»
somente o melhor que fizeram y somente o pior que os índios
            fizeram o homem branco contou»

Lobo Amarelo sentado disse:
«foi assim porque nós não juntamos palavras mudas y quietas?»
«foi assim porque escrevemos com fumaça y tambores?»
«foi assim porque falamos pretando muita atenção à antítese
            ao paralelismo à repetição à hipérbole ao solilóquio
            às perguntas retóricas às expressões simbólicas aos
            caminhos que as palavras buscam para sair?»
«foi assim porque não botamos coração em papeizinhos?»

Lobo Amarelo sentado disse:
«o homem branco nos tirou a terra que pisavam nossos pés»
«o homem branco matou crianças índias no massacre de Wounded
            Knee South Dakota em 1890 y em outros massacres outros lugares
            outros anos»
«o homem branco disse que os piolhinhos virariam piolhos
grandes y matou crianças índias»
«o homem branco matou crianças»

Lobo Amarelo sentado disse:
«depois contaram só um lado das coisas»
«contaram em seu favor»
«contaram muito que não é verdade»
«somente o melhor que fizeram y somente o pior que os índios
            fizeram o homem branco contou»

Lobo Amarelo sentado disse:
«foi assim porque nós não juntamos palavras mudas y quietas?»
«foi assim porque escrevemos com fumaça y tambores?»
«foi assim porque falamos prestando muita atenção à antítese
            ao paralelismo à repetição à hipérbole ao solilóquio
            às perguntas retóricas às expressões simbólicas
            aos caminhos que as palavras buscam para sair?»
«foi assim porque não botamos coração em papeizinhos?»

Uŋpȟáŋ Glešká (Alce Malhado), Chefe Lakota
morto no Massacre de Wounded Knee, Dakota do Sul, 1890



Defectos

Lobo Amarillo se sentó y dijo:
«los blancos contaron un solo lado de las cosas»
«contaron para su placer»
«contaron mucho que no es la verdad»
«solamente lo mejor que hicieron y solamente lo peor que los índios
hicieron el hombre blanco contó»

Lobo Amarillo sentado dijo:
«¿fue así porque nosotros no juntamos palabras mudas y quietas? »
«¿fue así porque escribimos con humo y con tambores? »
«¿fue así porque hablamos prestando mucha atención a la antíteses
al paralelismo a la repetición a la hipérbole al soliloquio
a las preguntas retóricas a las expresiones simbólicas a los
caminos que las palavras buscan para salir? »
«¿fue así porque no ponemos corazón en papelitos? »

Lobo Amarillo sentado dijo:
«el hombre blanco nos quitó la tierra que pisaban nuestros pies»
«el hombre blanco mató niños indios en la masacre de Wounded
Knee South Dakota en 1890 y en otras masacres otros lugares
otros años»
«el hombre blanco dijo que los piojos chicos se convierten en piojos
grandes y mató niños indios»
«el hombre blanco mató niños»

Lobo Amarillo sentado dijo:
«después contaron un solo lado de las cosas»
«contaron para su placer»
«contaron mucho que no es la verdad»
«solamente lo mejor que hicieron y solamente lo peor que los indios
hicieron el hombre blanco contó»

Lobo Amarillo sentado dijo:
«¿fue así porque nosotros no juntamos palabras mudas y quietas?»
«¿fue así porque escribimos con humo y con tambores?»
«¿fue así porque hablamos prestando mucha atención a la antíteses
al paralelismo a la repetición a la hipérbole al soliloquio
a las preguntas retóricas a las expresiones simbólicas
a los caminos que las palavras buscan para salir?»
«¿fue así porque no ponemos corazón en papelitos?»

Juan Gelman
1997