segunda-feira, 4 de setembro de 2017

menos que um: nicanor parra, deus

EU, JEOVÁ, DECRETO

Eu, Jeová, decreto
que se acabe tudo de vez
e lavo minhas mãos ao sistema solar

há que voltar ao útero materno
dou tudo por encerrado

que ninguém escape
que tudo se acabe de um golpe
para que enrolar com essa história?

sem problemas com a Guerra do Vietnã
sem problemas com a Operação da próstata
Eu, Jeová, decreto a velhice

vocês me fazem rir
vocês me deixam louco
só um cretino de nascença
se ajoelha a venerar uma estátua

francamente, não sei o que lhes dizer
estamos à beira da III Guerra Mundial
e ninguém parece se dar conta de nada

se destróem o mundo
creem que vou criá-lo outra vez?




 YO JEHOVÁ DECRETO

Yo Jehová decreto
que se termine todo de una vez
hago la cruz al sistema solar

hay que volver al útero materno
doy por finiquitada la cosa

que no se escape nadie
que se termine todo de golpe
para qué vamos a andar con rodeos

está muy bien la Guerra de Viet-Nam
está muy bien la Operación a la próstata
Yo Jehová decreto la vejez

ustedes me dan risa
ustedes me ponen los nervios de punta
sólo un cretino de nacimiento
se arrodilla a venerar una estatua

francamente no sé qué decirles
estamos al borde de la Tercera Guerra Mundial
y nadie parece darse cuenta de nada

si destruyen el mundo
¿creen que yo voy a volver a crearlo?

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

menos que um: andrea cohen pela fresta

CRUEL

É cruel dispor
uma janela ao prisioneiro -
vislumbre de céu azul -

como se houvesse
vida no além. Cruel
você passar

com seu corpo
neste mesmo
quarto onde te sonho.


 BRUTAL

Brutal to give
the prisoner a window---
a blue sky glimpse---

as if an afterlife
existed. Brutal
for you to parade

in a body
in the same
room where I dream you.

menos que um: karen garrote a distância

Quanta distância
existe
entre minhas mãos
e o tamanho
que imagino
para as tuas?
Quão longas
são
as viagens
que começam
quando sorvo
um gole de chá
e repouso
a xícara
na mesa?


¿Cuánta distancia
hay
entre mis manos
y el tamaño
que imagino
de las tuyas?
¿cuán largos
son
los viajes
que se emprenden
cuando tomo
un sorbo de té
y apoyo
la taza
en la mesa?

terça-feira, 8 de agosto de 2017

com a palavra: gary snyder sobre a prática da meditação, sobre a prática da poesia

Atenção: calma deliberada
e silêncio.

[...]

Meditação não é somente um descanso ou um retiro do tumulto, da correnteza de impurezas deste mundo. É uma forma de se ser a correnteza, para tornar possível estar à vontade tanto nas águas calmas quanto no turbilhão. A meditação pode nos tirar do mundo, mas também nos colocar totalmente nele. Poemas também funcionam um pouco desse jeito. A experiência de um poema nos oferece distância e envolvimento: ficamos próximos e distantes ao mesmo tempo.


[...]

Tradições de atenção deliberada da consciência, e a feitura de poemas, são tão velhas quanto a humanidade. A meditação olha para dentro, a poesia se demora. Uma é privativa, a outra está no mundo. Uma adentra o momento, a outra o partilha. Mas na prática, nunca sabemos claramente qual é qual. Em todo caso, sabemos que a despeito da percepção atual sobre meditação e poesia serem especiais, exóticas e difíceis, ambas são antigas e banais feito mato. Aquela se volta aos momentos essenciais de calma e introspeção profunda, e esta ao impulso fundamental da expressão.

[...]

Poesia é um meio de celebrar a verdade de um universo não-dual, em todas suas facetas.

[...]

[Como disse o poeta Bashô] “toda poesia e arte são oferendas ao Buda.”

(trechos traduzidos a partir do original Just One Breath: The Practice of Poetry and Meditation)

domingo, 23 de julho de 2017

menos que um: olhar comum de pattiann rogers

Abaixo, a tradução que fiz de A Common Sight, da poeta americana Pattian Rogers. Agradeço às também poetas e ótimas leitoras Robin Myers e Micheliny Verunschk pelo incentivo à leitura e à tradução deste poema, respectivamente.


VISÃO COMUM

Há pelo menos um olho
para todas as coisas nesta tarde.
As algas e os germes, invisíveis
para alguns, por exemplo, são vistos
por protozoários; e os girinos
de cauda escura, aglomerados,
são encontrados pelo besouro
prenhe de ovos. A truta tem olhos
para as larvas sobre a água, peixinhos,
para as ninfas de libélula; outros peixes reluzentes
testemunham a presença
de tropéis de moscas d'água.

Os grãos de solidago
valiosos, são algo que procura
o gafanhoto, a quem, por sua vez, o musaranho
encontra num instante, se agitando
e atraindo os olhos bem treinados
do gavião que caça roedores.

Há um olhar para cada coisa.
A salamandra busca
vermes-crina-de-cavalo, e a aranha-pernilonga
presta atenção ao mosquito em voo,
e ao pernilongo. Pererecas
não passam despercebidas, sendo espiadas
sobretudo pelos quatis,
e ainda que seja noite por sob
a terra, a minhoca, a lagarta e a larva de cigarrinha são notadas
pela toupeira-nariz-de-estrela.

É tão estranho que nada passe despercebido.
Mesmo o tempo demonstra isso,
cada copépode na colônia possuindo
uma fotopercepção que é sensível
às horas, a congregação toda se erguendo
como se um corpo só, a tocar esta tarde
que existe pra fora do açude.

E eu tenho meu próprio olho
para esta visão específica, esta contínua
validação-pelo-olhar que é dada
e às vezes retida pelo mexilhão,
pelo percevejo-d'água, lince, pela abelha
silvestre, pelo mergulhão, pela mosca
de mais de mil olhos, pelo agreste e atento
molusco sombreiro.

Observe, eu te peço, como espreito. Observe
meu olhar, como o mantenho. Observe quanto tempo,
quão amável, observe
como alimento.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

menos que um: a memória de auden para yeats

Há quatro anos, traduzi o primeiro texto da seção menos que um, que ali mesmo ganhou título. Hoje, ajeito um pouco os versos e aqui posto de novo. Poema de W.H. Auden para W.B. Yeats, que conheci por J. Brodsky através de A. Malaspina.


W.B. Yeats


In Memory of W.B. Yeats
[em memória de W.H. Auden
em memória de Joseph Brodsky]

O tempo, impaciente
Com o medroso ou o valente,
Que não se importa nem um pouco
Com a beleza de um corpo,

Venera a linguagem e libera
A todos que dão vida a ela;
Perdoa o covarde, o que abusa
e diante deles se curva.

[...]

Segue, poeta, mantém o passo
Direto ao âmago do ocaso,
Com sua voz, tranquilamente
Aponte o júbilo pra gente.

[...]

Nos desertos de dentro d'alma
Faz jorrar a fonte que acalma,
Na prisão de seus dias sem cor
Mostra ao liberto o que é louvor.


W.H. Auden


In Memory of W.B. Yeats

Time that is intolerant
Of the brave and the innocent,
And indifferent in a week
To a beautiful physique,

Worships language and forgives
Everyone by whom it lives;
Pardons cowardice, conceit,
Lays its honours at their feet.

[...]

Follow, poet, follow right
To the bottom of the night,
With your unconstraining voice
Still persuade us to rejoice 
[...]

In the deserts of the heart
Let the healing fountains start,
In the prison of his days
Teach the free man how to praise.

sábado, 22 de outubro de 2016

menos que um/com a palavra: gary snyder sobre a prática

"Entrevistador: Vamos falar sobre budismo mais um pouco. Para muitos poetas, poesia é a religião do século vinte. E estou curioso, nesse sentido, para saber o que você aprendeu do budismo que não aprendeu da poesia.

Gary Snyder: Tive uma conversa engraçada com Clayton Eshleman, o editor e poeta, há muitos anos, quando ele ainda estava em Quioto. Clayton falava sobre poesia, exaustiva e apaixonadamente. E eu disse a ele: “Mas Clayton, eu já tenho uma religião. Sou budista.” [...] Não acho que arte seja uma religião. Não acho que ela lhe ajude a ensinar seus filhos como agradecer pela comida, como discernir o verdadeiro do falso, ou como não prejudicar os outros. Arte certamente pode ajudá-lo a explorar sua própria consciência, sua própria mente e suas próprias motivações, mas não oferece um programa para sua realização. Penso que arte é bem próxima do budismo e pode ser parte de sua prática, mas há terrenos que a psicologia e a filosofia budistas devem explorar, e que a arte seria bem tola se tentasse.

Entrevistador: Então você faz essa distinção basicamente sobre questões éticas?

Snyder: Bom, tem ética, tem filosofia, tem o espírito de devoção, e tem também a simples capacidade de que isso se torne uma base cultural, um território no qual você seja capaz de transmitir seu modo de ser-e-estar, e a religião desempenha um forte papel nesse sentido. E também há o outro fim da prática religiosa e budista, aquele que ultrapassa a arte. Por ele, você se torna capaz de entrar no terreno da completude e beleza de todos os fenômenos. Você realmente entra no mundo, não precisa de arte porque tudo é extraordinário, fresco e fantástico.”

Trecho da entrevista concedida em 1992, presente no livro Beat writers at work, editado por George Plimpton. Na apresentação da entrevista, a nota: "O que a transcrição não mostra é a quantidade de vezes que a conversa foi marcada por gargalhadas."

Tradução minha.